O Idiota Está Entre Nós (E Às Vezes, Somos Nós)

Se você acha que idiota é apenas o sujeito que fala besteira no WhatsApp da família, talvez seja hora de abrir um dicionário grego. Lá, entre colunas jônicas e sábias de toga, o termo idiotés não significava burro, mas algo pior: aquele que não participa da vida pública. O apólitico. O alheio ao comum. O que olha para o mundo em chamas e diz: “isso não é problema meu”.

Pois bem. O idiota saiu da ágora e foi direto para o Twitter. Não é mais só alheio: agora ele curte, compartilha e vota.

A tragédia começa em 2008

A crise de 2008 fez mais estragos do que o subprime e a falência do Lehman Brothers. Ela arrombou o assoalho da classe média, despejou famílias, dissolveu certezas e semeou ressentimento. Um ressentimento daqueles: com raiva, sem rumo e com saudade de um passado que talvez nunca tenha existido.

Nos Estados Unidos, muita gente trocou a casa pelo trailer. É o mundo retratado em Nomadland, filme que merecia ser exibido antes de toda campanha eleitoral. Porque ali está o retrato do eleitor que Trump, Orban, Le Pen e Milei aprenderam a conquistar: o ex-integrado. O sujeito que já teve algo, perdeu, e agora quer vingança disfarçada de mudança.

E quem oferece essa vingança?

Trump: o idiota que não era idiota

Trump, ao contrário do que muita gente pensa (ou deseja), está longe de ser burro. Ele é um comunicador de manual. Um corretor de imóveis com alma de showman. Alguém que percebeu, antes de muita gente, que a política tinha virado stand-up. E que o riso amargo do eleitor frustrado valia mais que qualquer plano de governo.

“Eu me divirto muito”, disse Trump certa vez, já no poder. A frase revela mais que mil tweets. Enquanto Obama saía do governo com cabelos brancos, Trump sairá apenas bronzeado. Porque ele não governa, ele performa. E seu governo foi uma sequência de atos performáticos, atravessados por uma ideia fixa: demolir.

Steve Bannon, seu conselheiro de caos, não escondia a intenção. O plano era acabar com o “estado administrativo”. Uma revolução sem barricadas, feita a partir do salão oval. Um projeto escatológico, no qual a destruição das instituições é o meio e o fim.

A engenharia do ressentimento

Mas não se constrói um império do absurdo sem mão de obra. E a matéria-prima está por toda parte:

  • trabalhadores precarizados,
  • classes médias ameaçadas,
  • jovens sem perspectivas,
  • e idosos que acham que a Terra ficou moderna demais pra ser confiável.

É gente que olha para as causas progressistas e não se vê representada. Que assiste ao avanço das pautas identitárias com o sentimento de que perderam seu lugar no mundo. São esses os idiotas do século XXI: não porque são tolos, mas porque estão alheios ao debate real. E, no vácuo da política concreta, aceitaram o meme como doutrina.

Cambridge Analytica: quando o algoritmo descobre o idiota

A genialidade do novo populismo não está em propor saídas, mas em repetir perguntas que já têm resposta pronta. “Você não está cansado de tudo isso que está aí?” O sujeito não sabe exatamente o que é “isso aí”, mas está.

Com dados roubados e perfis psicológicos bem calibrados, a Cambridge Analytica soube apontar com frieza onde o ressentimento dormia. E o acordou com uma enxurrada de micropropaganda, personalizada e emocional. O idiota, agora digital, passou a se sentir parte de algo maior. Uma cruzada contra o sistema. Um exército de likes.

Orban, Milei, Le Pen: variações sobre o mesmo ressentimento

Na Hungria, Viktor Orban ergueu muros simbólicos contra a Europa e reais contra imigrantes. Na França, Le Pen ainda finge que não é extrema, mas fala como se fosse. Na Argentina, Milei agita uma motosserra para simbolizar seu plano de governo (que, ao que tudo indica, é gritar contra tudo e torcer por um milagre).

Todos esses personagens dizem representar o “povo de verdade” contra elites que nunca se definem direito. Todos são contra “o sistema”, mesmo quando já são o sistema. E todos falam para ressentidos: os que sentem que foram esquecidos pelo progresso.

O filtro da realidade: o mercado ainda freia o idiota

Mas nem tudo é tweet. O professor Leonardo Trevisan lembrou bem: Trump pode ser barulhento, mas tem medo do mercado. Quando os juros de 10 anos subiram 15% em três dias, ele recuou. Porque o idiota é atrevido, mas não é louco. E quem manda mesmo não é o eleitor indignado, mas o investidor inquieto.

A tragédia é que a realidade, esse eterno estraga-prazeres, às vezes tarda. E nesse intervalo, o idiota faz estrago. Derruba pactos, contamina o debate, empobrece o discurso.

O idiota somos nós?

Humberto Eco dizia que as redes sociais deram voz a uma legião de idiotas. Mas talvez o problema não seja só o eco. Talvez sejamos nós mesmos, em dias de cansaço, em momentos de descrença, que flertamos com soluções fáceis.

Porque a sedução do idiota é justamente essa: ele oferece respostas simples para dilemas complexos. Ele dispensa nuance, ridiculariza o saber, transforma a raiva em programa.

Epílogo com Gramsci, Napoleão e Millôr

Gramsci dizia: “O velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, surgem os fenômenos morbosos.” Trump é um deles. Orban também. O idiota moderno é o fenômeno moribundo de um mundo que ainda não entendeu para onde vai.

Napoleão, lido por Marx, virava petit Napoléon, coroado por salsicheiros. Hoje, é coroado por canais de YouTube.

Millôr Fernandes talvez não escrevesse um tratado sobre tudo isso. Ele resumiria em uma frase:

“O idiota é tão perigoso que, para não ser confundido com ele, o inteligente prefere calar.”

Pois está na hora de falar. Com ironia, com coragem, com lucidez. Porque o idiota não tem culpa de existir. Mas temos culpa se deixarmos que ele mande.


Ilustração cômica de um homem sorridente com expressão ingênua ao centro, cercado por outras figuras rindo ao fundo, sob o título “O Idiota Está Entre Nós (E Às Vezes, Somos Nós)

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