Índice
- 1
- 2 A tragédia começa em 2008
- 3 Trump: o idiota que não era idiota
- 4 A engenharia do ressentimento
- 5 Cambridge Analytica: quando o algoritmo descobre o idiota
- 6 Orban, Milei, Le Pen: variações sobre o mesmo ressentimento
- 7 O filtro da realidade: o mercado ainda freia o idiota
- 8 O idiota somos nós?
- 9 Epílogo com Gramsci, Napoleão e Millôr
Se você acha que idiota é apenas o sujeito que fala besteira no WhatsApp da família, talvez seja hora de abrir um dicionário grego. Lá, entre colunas jônicas e sábias de toga, o termo idiotés não significava burro, mas algo pior: aquele que não participa da vida pública. O apólitico. O alheio ao comum. O que olha para o mundo em chamas e diz: “isso não é problema meu”.
Pois bem. O idiota saiu da ágora e foi direto para o Twitter. Não é mais só alheio: agora ele curte, compartilha e vota.
A tragédia começa em 2008
A crise de 2008 fez mais estragos do que o subprime e a falência do Lehman Brothers. Ela arrombou o assoalho da classe média, despejou famílias, dissolveu certezas e semeou ressentimento. Um ressentimento daqueles: com raiva, sem rumo e com saudade de um passado que talvez nunca tenha existido.
Nos Estados Unidos, muita gente trocou a casa pelo trailer. É o mundo retratado em Nomadland, filme que merecia ser exibido antes de toda campanha eleitoral. Porque ali está o retrato do eleitor que Trump, Orban, Le Pen e Milei aprenderam a conquistar: o ex-integrado. O sujeito que já teve algo, perdeu, e agora quer vingança disfarçada de mudança.
E quem oferece essa vingança?
Trump: o idiota que não era idiota
Trump, ao contrário do que muita gente pensa (ou deseja), está longe de ser burro. Ele é um comunicador de manual. Um corretor de imóveis com alma de showman. Alguém que percebeu, antes de muita gente, que a política tinha virado stand-up. E que o riso amargo do eleitor frustrado valia mais que qualquer plano de governo.
“Eu me divirto muito”, disse Trump certa vez, já no poder. A frase revela mais que mil tweets. Enquanto Obama saía do governo com cabelos brancos, Trump sairá apenas bronzeado. Porque ele não governa, ele performa. E seu governo foi uma sequência de atos performáticos, atravessados por uma ideia fixa: demolir.
Steve Bannon, seu conselheiro de caos, não escondia a intenção. O plano era acabar com o “estado administrativo”. Uma revolução sem barricadas, feita a partir do salão oval. Um projeto escatológico, no qual a destruição das instituições é o meio e o fim.
A engenharia do ressentimento
Mas não se constrói um império do absurdo sem mão de obra. E a matéria-prima está por toda parte:
- trabalhadores precarizados,
- classes médias ameaçadas,
- jovens sem perspectivas,
- e idosos que acham que a Terra ficou moderna demais pra ser confiável.
É gente que olha para as causas progressistas e não se vê representada. Que assiste ao avanço das pautas identitárias com o sentimento de que perderam seu lugar no mundo. São esses os idiotas do século XXI: não porque são tolos, mas porque estão alheios ao debate real. E, no vácuo da política concreta, aceitaram o meme como doutrina.
Cambridge Analytica: quando o algoritmo descobre o idiota
A genialidade do novo populismo não está em propor saídas, mas em repetir perguntas que já têm resposta pronta. “Você não está cansado de tudo isso que está aí?” O sujeito não sabe exatamente o que é “isso aí”, mas está.
Com dados roubados e perfis psicológicos bem calibrados, a Cambridge Analytica soube apontar com frieza onde o ressentimento dormia. E o acordou com uma enxurrada de micropropaganda, personalizada e emocional. O idiota, agora digital, passou a se sentir parte de algo maior. Uma cruzada contra o sistema. Um exército de likes.
Orban, Milei, Le Pen: variações sobre o mesmo ressentimento
Na Hungria, Viktor Orban ergueu muros simbólicos contra a Europa e reais contra imigrantes. Na França, Le Pen ainda finge que não é extrema, mas fala como se fosse. Na Argentina, Milei agita uma motosserra para simbolizar seu plano de governo (que, ao que tudo indica, é gritar contra tudo e torcer por um milagre).
Todos esses personagens dizem representar o “povo de verdade” contra elites que nunca se definem direito. Todos são contra “o sistema”, mesmo quando já são o sistema. E todos falam para ressentidos: os que sentem que foram esquecidos pelo progresso.
O filtro da realidade: o mercado ainda freia o idiota
Mas nem tudo é tweet. O professor Leonardo Trevisan lembrou bem: Trump pode ser barulhento, mas tem medo do mercado. Quando os juros de 10 anos subiram 15% em três dias, ele recuou. Porque o idiota é atrevido, mas não é louco. E quem manda mesmo não é o eleitor indignado, mas o investidor inquieto.
A tragédia é que a realidade, esse eterno estraga-prazeres, às vezes tarda. E nesse intervalo, o idiota faz estrago. Derruba pactos, contamina o debate, empobrece o discurso.
O idiota somos nós?
Humberto Eco dizia que as redes sociais deram voz a uma legião de idiotas. Mas talvez o problema não seja só o eco. Talvez sejamos nós mesmos, em dias de cansaço, em momentos de descrença, que flertamos com soluções fáceis.
Porque a sedução do idiota é justamente essa: ele oferece respostas simples para dilemas complexos. Ele dispensa nuance, ridiculariza o saber, transforma a raiva em programa.
Epílogo com Gramsci, Napoleão e Millôr
Gramsci dizia: “O velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, surgem os fenômenos morbosos.” Trump é um deles. Orban também. O idiota moderno é o fenômeno moribundo de um mundo que ainda não entendeu para onde vai.
Napoleão, lido por Marx, virava petit Napoléon, coroado por salsicheiros. Hoje, é coroado por canais de YouTube.
Millôr Fernandes talvez não escrevesse um tratado sobre tudo isso. Ele resumiria em uma frase:
“O idiota é tão perigoso que, para não ser confundido com ele, o inteligente prefere calar.”
Pois está na hora de falar. Com ironia, com coragem, com lucidez. Porque o idiota não tem culpa de existir. Mas temos culpa se deixarmos que ele mande.

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