2055 — O Gigante que Aprendeu a Cuidar

Crônica de um Brasil que parou de desperdiçar seu potencial.

A MANHÃ TRANQUILA (Outubro, 2055)

São 7 da manhã em uma cidade média brasileira. O silêncio nas ruas não é de vazio, é de ordem. Nas calçadas, crianças caminham para a escola pública do bairro. Elas não sabem, mas aquela escola tem piscina aquecida, robótica e professores com salário de dignidade internacional. Elas acham isso normal.

Os pais dessas crianças não têm medo de perder o emprego e cair na miséria absoluta. Eles sabem que existe uma rede de proteção, não de esmolas, mas de solidariedade estruturada.

O Brasil de 2055 não é uma utopia de ficção científica. É um país que respira. Chegamos lá não com mágica, mas com uma mudança de mentalidade que começou trinta anos atrás.

O DIAGNÓSTICO ERRADO (2026)

Lembro-me de como éramos em 2026. Vivíamos sob a tirania do “cobertor curto”. Diziam que o Brasil estava quebrado. Mentira. O Brasil nunca foi pobre; o Brasil era um desperdiçador compulsivo.

Gastávamos bilhões, mas gastávamos mal. O Estado era um Robin Hood às avessas: tirava de todos (via consumo) para financiar subsídios de poucos (via isenções e privilégios). Tínhamos uma Reforma Tributária de 2025 que “passou de raspão”. O andar de cima continuava intocável.

Os números eram obscenos: o 1% mais rico pagava alíquota efetiva de 19% enquanto a classe média assalariada sangrava 27%. R$ 860 bilhões em isenções fiscais anuais — dinheiro suficiente para dobrar o investimento em educação e saúde. Mas preferíamos dar desconto para quem comprava jatinho.

Era um país rico que escolhia ser injusto.

A GRANDE CORREÇÃO (A Década da Virada)

A mudança não veio porque os políticos acordaram bondosos. A mudança veio porque a população acordou exigente.

Foi em março de 2028. O vazamento dos dados da Receita Federal mostrou que 847 famílias movimentavam mais riqueza que 40 milhões de brasileiros. A hashtag #OsIntocáveis não saiu do trending por 180 dias. Não foi apenas indignação — foi aritmética moral exposta em planilhas que até uma criança entendia.

As ruas encheram com uma nova pauta. Não queríamos Estado Mínimo, nem Estado Inchado. Queríamos o Estado Necessário e Eficiente.

Foi quando o povo parou de brigar por ideologia e começou a brigar por matemática.

Três pilares sustentaram essa revolução silenciosa:

1. A Justiça Fiscal Real

A correção da Reforma Tributária foi implacável. Acabaram-se os subsídios indecorosos para setores que não precisavam. O “andar de cima” foi convidado — à força — a contribuir.

A lógica virou: quem ganha milhões paga a mesma alíquota real de quem ganha salários. Simples assim. Entre 2028 e 2035, a carga tributária dos 10% mais ricos saltou de 19% para 38%. E sabe o que aconteceu? O país não quebrou. Cresceu.

O dinheiro parou de escoar pelo ralo das isenções e começou a encher a caixa d’água dos serviços públicos.

2. O Gasto que Transforma

Paramos de dizer “o governo gasta demais” e passamos a exigir “o governo gasta bem”. A Reforma Administrativa aconteceu na marra. O serviço público foi valorizado, mas cobrado.

Digitalizamos a burocracia. Conheci Joana, que abriu uma padaria artesanal em Petrópolis. Ela me contou que, em 2045, conseguiu o alvará em 48 horas pelo celular. Seu pai, padeiro também, tinha levado 11 meses para o mesmo processo em 2018.

Cada centavo economizado em papelada e privilégios virou um tijolo na escola ou uma vacina no posto. O investimento em educação passou de 5,2% para 9,8% do PIB. Em saúde, saltamos de 3,9% para 7,4%.

Construímos um Estado de Bem-Estar Social tropical. Não copiamos a Noruega ou a Finlândia; nós adaptamos a eficiência deles ao nosso calor humano.

3. O Verdadeiro Fundo Soberano

E o nosso petróleo? E as nossas riquezas? Não viraram cheque na mão para comprar voto. Viraram o “Dividendo Social”.

O lucro do nosso Fundo Soberano não é distribuído em dinheiro, mas em acesso. O dividendo é o transplante feito em 48 horas. O dividendo é o transporte público elétrico e pontual. O dividendo é a segurança de andar na rua com o celular na mão às 10 da noite.

AS CICATRIZES DA VITÓRIA

Não foi fácil. Perdemos dois anos brigando. A elite econômica paralisou investimentos. Houve recessão técnica em 2030. Três ministros caíram. O mercado financeiro berrava “populismo”.

Mas a população não recuou — porque finalmente entendera que crescer sem distribuir era enriquecer fantasmas. O PIB caiu 1,8% em 2030, mas a confiança popular em abril daquele ano atingiu 67%, o maior índice em 40 anos.

Descobrimos que transformação estrutural dói no curto prazo, mas salva no longo.

O RESULTADO: UMA ESCANDINÁVIA TROPICAL

Hoje, os indicadores econômicos mostram algo curioso. A mortalidade infantil caiu de 12,4 para 3,2 por mil nascidos vivos. A expectativa de vida subiu para 81 anos. O índice de Gini, que media desigualdade, despencou de 0,52 para 0,31.

Em alguns quesitos, superamos a Suécia. Não em renda per capita absoluta, mas em felicidade interna bruta. Descobrimos que o brasileiro, quando tem as necessidades básicas garantidas com excelência, é a força mais criativa do planeta.

O empreendedor não quebra porque a burocracia sumiu. O artista não passa fome. O cientista não foge para o exterior.

EPÍLOGO: A ESCOLHA FOI NOSSA

Olho para trás e vejo que o segredo foi parar de aceitar a mediocridade como destino. Paramos de acreditar que “corrupção é da cultura” ou que “desigualdade é natural”.

Nós escolhemos gastar bem. Escolhemos cobrar quem tinha mais. Escolhemos proteger quem tinha menos.

Não somos perfeitos. Ainda temos bolsões de pobreza no interior do Maranhão. Ainda perdemos talentos para o Vale do Silício. Mas a diferença é que agora lutamos contra problemas reais, não contra fantasmas inventados para justificar privilégios.

Se você está lendo isso em 2025, saiba: a “obra-prima” chamada Brasil está aí, escondida sob camadas de má gestão e privilégios. Só falta vocês pegarem o cinzel e começarem a esculpir.

Acreditem: o resultado vale cada gota de suor.

Cena futurista de uma cidade brasileira moderna com prédios sustentáveis, bandeira do Brasil hasteada no topo de uma torre de vidro, trens de alta velocidade suspensos, áreas verdes e pessoas caminhando em um boulevard iluminado pelo pôr do sol. Texto na imagem: ‘Como o Brasil se tornou uma Escandinávia Tropical (e você pode provar que é possível)’.”

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