Oleksandra Matviichuk e as Lições da Ucrânia para a Democracia Brasileira

Assisti ontem ao Roda Viva com Oleksandra Matviichuk e não consegui me livrar da sensação de que ela estava falando diretamente comigo – e com todos nós, brasileiros que acreditamos viver em uma democracia estável e distante das catástrofes. Senti que tinha a obrigação de traduzir as lições dolorosas que ela trouxe para o nosso próprio contexto, porque elas não dizem respeito apenas à Ucrânia. Dizem respeito a qualquer lugar onde as pessoas se esquecem de que a civilização é uma conquista frágil, não um direito automático.

Há uma elegância clássica em Oleksandra Matviichuk, uma postura que denuncia a disciplina da advogada, a firmeza de quem construiu uma carreira inteira sobre a precisão das palavras. Uma mulher de beleza serena, que fala com a clareza dos intelectuais que não precisam inventar complexidade para impressionar. Ela poderia estar em qualquer fórum global, discutindo as minúcias do direito internacional com tranquilidade profissional. Mas são os olhos que destroem essa primeira impressão. Naqueles olhos, reside um conhecimento que nenhuma universidade de prestígio pode ensinar. É um olhar que já viu demais, o olhar de quem cruzou uma fronteira da qual não se volta.

A fronteira de saber do que a natureza humana é capaz quando as regras do jogo civilizatório se dissolvem. De conhecer o cheiro da morte em prédios onde antes havia famílias jantando, o silêncio de uma criança que testemunhou o inominável, a expressão congelada de uma mãe que perdeu tudo. Enquanto nós, privilegiados do tédio tropical, reclamamos do trânsito ou da velocidade da conexão, o olhar de Matviichuk carrega o peso de uma realidade onde a barbárie não é um conceito acadêmico, mas o cotidiano de quem ela defende.

Mas Matviichuk não está no palco para nos comover com o sofrimento de seu povo. Seu recado é mais duro, mais direto e, justamente por isso, mais perturbador. E é aqui que seu olhar atravessa o oceano e pousa, desconfortável, sobre nós. A primeira lição que ela nos entrega, quase impaciente com nossa ingenuidade, é sobre como a mentira se transforma em instrumento de destruição.

Putin, ela explica, não invadiu a Ucrânia por medo da OTAN. Invadiu por medo da liberdade. O verdadeiro perigo era uma democracia imperfeita, ruidosa e teimosa, funcionando em sua fronteira. Para justificar a destruição, foi preciso primeiro destruir a verdade. Inventou-se a narrativa de um país tomado por “nazistas”, uma ficção repugnante para legitimar a violência. A tática é brutalmente simples: transforme o vizinho em monstro e qualquer barbaridade se torna, se não justificável, ao menos “compreensível” para uma população narcotizada pela propaganda.

Soa familiar? Deveria. O Brasil, nos últimos anos, foi palco dessa mesma estratégia de demolição da realidade. Não tivemos tanques nas ruas, mas a arma foi a mesma. Para corroer a democracia desde dentro, fabricaram-se inimigos em escala industrial: o fantasma do comunismo espreitando cada escola, os tribunais como centros de conspiração, as urnas como máquinas de fraude, a imprensa como um sindicato da mentira. O “nazista” de Putin é o “comunista” da nossa guerra cultural provinciana. A mecânica é idêntica: primeiro, você desumaniza o adversário com um rótulo vil; depois, qualquer ataque contra ele se torna aceitável.

E isso nos leva à segunda lição, a mais dolorosa, que vem do diagnóstico de Matviichuk. Ela observa que, nas democracias consolidadas, as pessoas pararam de lutar pela liberdade. Viraram meras “consumidoras de democracia”. A liberdade, para nós, virou mais um serviço contratado, um direito automático que, como a água da torneira, só percebemos quando para de jorrar.

Achamos que a democracia é o estado natural das coisas, algo garantido desde sempre. Que ilusão ridícula. A democracia não é natural; ela é um acidente histórico, uma construção frágil e cansativa que contradiz todos os nossos impulsos mais primitivos de buscar um líder autoritário, de nos agrupar em tribos e de querer destruir quem pensa diferente. Ela exige uma paciência sobre-humana para ouvir o imbecil que discorda de você, a humildade de aceitar a derrota e a coragem de defender o direito de falar de quem você detesta.

Nós, brasileiros, nos tornamos especialistas em consumir democracia. Exigimos nossos direitos, gritamos em nossas bolhas digitais, tratamos o voto como uma camisa de time e, no dia seguinte, delegamos a responsabilidade pela manutenção dessa estrutura frágil a políticos que, em sua maioria, prefeririam desmontá-la para construir seus próprios impérios particulares.

O recado que vem do olhar de Oleksandra Matviichuk, portanto, não é um apelo por compaixão. É um diagnóstico e um aviso. O diagnóstico é que as ferramentas que destroem seu país – a mentira como método de governo e a indiferença de quem acredita em direitos perpétuos – não são uma patologia exclusivamente russa. Nós as vimos funcionando aqui, em nosso próprio território. Os ataques de 8 de janeiro não foram uma surpresa inexplicável; foram a consequência previsível de anos de destruição sistemática da verdade compartilhada.

O aviso é que a barbárie não respeita fronteiras. Ela é uma possibilidade constante, adormecida em qualquer sociedade que se esquece de quão custoso foi construir o mínimo de convivência civilizada. A lição final não é sobre esquerda ou direita, mas sobre a diferença entre ser um cidadão e ser um mero consumidor. Entre entender que a liberdade exige esforço diário e penoso e acreditar que ela vem embalada com garantia estendida.
O recado de seus olhos é direto: acordem, antes que o abismo olhe de volta. E, acreditem, ele sempre olha.

Mulher de olhos azuis intensos, cabelo castanho claro preso, vestindo um suéter marrom e um colar dourado volumoso, com um fundo desfocado de formas abstratas brancas. Seu olhar transmite seriedade e profundidade, características que podem ser relacionadas à discussão sobre o futuro da democracia brasileira.
Foto: Nadja Kouchi/Acervo TV Cultura

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