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Ato I: Domingo à Noite no Aeroporto
Era domingo à noite quando Daniel Vorcaro chegou ao Aeroporto de Guarulhos com aquela pressa característica de quem não está fugindo, apenas viajando com muita urgência para um lugar muito distante sem data de volta. Malta, para ser preciso. Ou talvez Dubai – os relatos divergem, mas a intenção era inequívoca: estar em qualquer lugar que não fosse o Brasil na segunda-feira de manhã.
O Falcon 7X já estava na pista, motores aquecidos. Quarenta milhões de reais em alumínio e querosene prontos para decolar rumo a jurisdições que fazem perguntas depois, se fizerem. Mas a Polícia Federal, em um daqueles raros momentos de sincronia entre informação e ação, também estava lá. Vorcaro não embarcou. Pelo menos não para Malta.
Quando o Banco Central liquidou o Banco Master horas depois, o rombo era digno de um país sério: R$ 12,2 bilhões em operações de crédito que tinham tudo – documentos, assinaturas, carimbos – exceto uma característica menor: os tomadores de empréstimo não existiam. Eram fantasmas muito bem vestidos, com CPFs em ordem e tudo.
R$ 2,6 bilhões eram do Rioprevidência, o fundo que paga aposentadorias de 235 mil servidores do Rio. Mas isso é apenas contabilidade. O interessante mesmo é a lista de amigos.
Ato II: O Banqueiro e Seus Altos Coturnos
Daniel Vorcaro era um homem de fino trato social. Não se constrói um banco de R$ 12 bilhões em fraudes sem uma agenda de contatos exemplar.
Em 2025, ele organizou o “Fórum Jurídico Brasil de Ideias” em Londres. Não em Brasília, note-se. Londres tem aquele charme de internacionalidade que eventos para discutir leis brasileiras tanto apreciam. A lista de convidados lia-se como quem-é-quem da República: ministros Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli. O Procurador-Geral Paulo Gonet. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre. O senador Ciro Nogueira, presidente do PP. Até o diretor-geral da Polícia Federal compareceu – presumivelmente sem imaginar que voltaria ao nome do anfitrião em contexto menos social.
Michel Temer, o homem que indicou Moraes ao STF, trabalhava como consultor de Vorcaro. Ricardo Lewandowski, antes de virar ministro da Justiça de Lula, integrou o comitê consultivo estratégico do Master. Henrique Meirelles e Gustavo Loyola, ex-presidentes do Banco Central – aqueles que deveriam saber reconhecer um banco podre a distância – também faziam parte do círculo.
O escritório de advocacia da esposa e dos dois filhos de Alexandre de Moraes foi contratado pelo banco. Jaques Wagner, líder do governo no Senado, mantinha “ligação próxima” com Augusto Lima, o sócio de Vorcaro. E Davi Alcolumbre? Bem, Alcolumbre tinha “trânsito facilitado” com o banqueiro.
“Trânsito facilitado” é o eufemismo que Brasília usa quando não quer dizer “eram amigos”.
Em 2 de setembro, quando o Banco Central preparava-se para vetar a compra desesperada do Master pelo BRB (banco público de Brasília), o deputado Cláudio Cajado, do PP da Bahia, protocolou pedido de urgência para um projeto que impediria o BC de fazer exatamente isso.
Não funcionou. O BC vetou no dia seguinte. Vorcaro começou a fazer malas.
Ato III: O Timing Que Explica Tudo
Agora vem a parte interessante.
18 de novembro: Vorcaro é preso. O Master é liquidado.
3 de dezembro (quinze dias depois): O ministro Gilmar Mendes concede liminar suspendendo trechos da Lei do Impeachment de 1950. Doravante, apenas o Procurador-Geral da República pode iniciar processo de impeachment contra ministros do STF. Quórum sobe de maioria simples (41 senadores) para dois terços (54).
4 de dezembro (vinte e quatro horas depois): Davi Alcolumbre sobe ao plenário do Senado para anunciar que está acelerando projeto que facilita impeachment de ministros. Pela nova proposta, qualquer cidadão com 1% dos eleitores do país (1,5 milhão de assinaturas) pode iniciar o processo. Além disso – e aqui a ironia atinge proporções quase literárias – qualquer cidadão e a OAB também ganham legitimidade.
Alcolumbre não mencionou o Banco Master. Falou em “equilíbrio entre poderes”, “prerrogativas do Senado”, “separação das funções republicanas”. Tudo muito constitucional.
Mas o silêncio sobre o Master era ensurdecedor.
Interlúdio: Uma Breve História do Esquecimento
Entre 2019 e 2022, foram protocolados no Senado mais de 140 pedidos de impeachment contra Jair Bolsonaro. Os fundamentos variavam entre negacionismo científico durante pandemia (500 mil mortos), interferência na Polícia Federal, incentivo a manifestações pedindo fechamento do Congresso e do STF, sigilo de 100 anos em cartões corporativos, e rachadinhas documentadas em planilhas encontradas pela PF.
Davi Alcolumbre, presidente do Senado em parte desse período, arquivou todos.
À época, “equilíbrio entre poderes” significava outra coisa. Significava não incomodar o Executivo. “Prerrogativas do Senado” incluíam a prerrogativa de fingir que não estava vendo.
Mas agora, quinze dias após a prisão do banqueiro que tinha “trânsito facilitado” com o presidente do Senado, Alcolumbre descobriu que impeachment deve ser fácil. Urgente, até.
A metamorfose é notável.
Ato Final: A Chantagem Educada
O que está acontecendo tem nome: chantagem institucional.
A mensagem implícita de Alcolumbre ao STF não poderia ser mais clara: “Se vocês aprofundarem as investigações sobre o Master e começarem a puxar os fios que levam até o Senado, eu facilito o impeachment de vocês. Tenho 1,5 milhão de assinaturas esperando.”
Não é coincidência que o projeto preveja exatamente 1% dos eleitores – um número alto o suficiente para parecer representativo, baixo o suficiente para ser mobilizável por qualquer movimento organizado com presença digital. MBL consegue. Bolsonaristas conseguem. Qualquer lobby econômico contrariado por decisão ambiental do STF consegue.
A facilidade é o ponto.
Porque o objetivo não é impeachment. É intimidação. É fazer cada ministro pensar duas vezes antes de autorizar operações da PF que investiguem parlamentares. É transformar a independência judicial em dependência do humor das redes sociais.
É, em suma, domesticar o único Poder que ainda não foi domesticado.
Epílogo: A República Que Quase Acabou
Há um detalhe que Alcolumbre prefere que esqueçamos: a democracia brasileira sobreviveu a 2019-2024 por um fio. E quem segurava esse fio, no final, era o Judiciário.
Foi o TSE, com Barroso e Moraes, que manteve as eleições de 2022 funcionando enquanto Bolsonaro as atacava diariamente. Foi o STF que conduziu investigações sobre tentativa de golpe quando o Congresso olhava para o lado. Foi Alexandre de Moraes, com todos os seus excessos e polêmicas, quem impediu que 8 de janeiro virasse 8 de janeiro chileno.
Imagine – e esse é o exercício mental que Alcolumbre espera que não façamos – imagine que em 2022 tivéssemos como presidente do TSE não Moraes, mas Kassio Nunes Marques ou André Mendonça, os ministros indicados por Bolsonaro.
Teríamos tido eleições confiáveis?
A resposta é não. E sabemos que a resposta é não porque vimos o que Bolsonaro tentou fazer mesmo sem controlar o TSE. Com controle, teria conseguido.
É por isso que enfraquecer o STF agora não é “reequilíbrio de poderes”. É revanchismo institucional. É a extrema-direita, dezoito meses depois de perder, tentando garantir que na próxima vez não terá obstáculos.
E Alcolumbre, que arquivou 140 pedidos quando Bolsonaro atacava instituições, agora descobriu urgência constitucional quinze dias depois que a PF prendeu seu amigo banqueiro.
A República brasileira é um lugar onde coincidências assim acontecem com frequência.
Davi Alcolumbre não respondeu aos pedidos de comentário sobre sua relação com Daniel Vorcaro. O Banco Master não pôde ser contatado, por razões que incluem não existir mais. O Falcon 7X permanece em Guarulhos, aguardando destino. E R$ 2,6 bilhões de aposentadorias de servidores do Rio continuam desaparecidos em algum lugar entre a realidade e a criatividade contábil.
O plenário do STF vota a liminar de Gilmar Mendes entre 12 e 19 de dezembro. A CCJ do Senado acelera o projeto de facilitação do impeachment.
Entre um evento e outro, Brasília finge que não vê a conexão.
É o que fazemos de melhor.