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Há um cansaço que não é do corpo, nem da mente, mas da própria alma política. Nas redes sociais, o progressismo de centro cultiva um jardim de esperanças: ativistas de todo o Brasil publicam o nome de Simone Tebet como se o desejo pudesse, por si só, alterar a geografia. Mas a política não é feita de curtidas; é feita de poeira, de chão e de uma estranheza que nenhum algoritmo consegue aplacar.
Simone Tebet, no voo que corta os céus rumo ao Panamá neste final de janeiro de 2026, é o símbolo desse desassossego. Ela é a “presidente que poderia ter sido”, agora exilada no sonho de um estado que ainda a olha como quem olha para um hóspede de passagem.
1. O Entusiasmo Distante e o Muro de São Paulo
O entusiasmo que transborda nas telas — o desejo de ver o “centro civilizado” ocupando o Palácio dos Bandeirantes — ignora a dureza do asfalto. Para o ativista de Pernambuco ou do Rio, Tebet é uma ideia; para o eleitor de São José do Rio Preto, ela é uma forasteira. O “progressismo iluminado” torce por ela, mas o voto que decide habita as cidades onde o nome dela ainda soa como um eco vindo de longe.
O obstáculo não é apenas Tarcísio de Freitas; é a própria identidade paulista. Pesquisas de janeiro de 2026 (Futura/Apex) mostram que, em um confronto direto, Tarcísio detém 42,5% das intenções contra apenas 15,5% de Tebet. Em um eventual segundo turno, a distância se torna um abismo: 60,1% para o governador contra 26,6% para a ministra. Os posts de apoio não alcançam o interior, onde o atual governo tem aprovação consolidada e as raízes da “forasteira” ainda não encontraram terra.
2. O Soldado Haddad e a Sombra do Planalto
Nesse tabuleiro, Fernando Haddad habita o seu próprio dilema. Ele é o “soldado de reserva” que preferiria o silêncio do Ministério da Fazenda. O seu “não” ao governo é o grito de quem teme o barulho das ruas. Mas o PT não busca a vontade do homem; busca a utilidade do símbolo.
As sondagens mostram que Haddad, com 17,9%, larga numericamente à frente de Tebet na disputa estadual, mas carrega o teto de um antipetismo que em São Paulo não perdoa. Se Lula apertar o nó da lealdade, Haddad desfará a sua paz. E, nesse instante, o sonho dos progressistas por uma “via Tebet” no Governo se desmanchará, restando a ela apenas a fenda do Senado — onde, ironicamente, ela lidera com 22,1%.
3. A Geometria das Probabilidades
A confirmação de Tarcísio de Freitas (29/01) — que diz ficar para guardar o seu feudo — transforma a esperança nacional em uma matemática de contenção.
- Senado via PSB (75%): O paraquedas de seda. É onde o desejo dos ativistas se encontra com a sobrevivência possível. No Senado, ela é gigante; no Governo, é uma aposta sob cerco.
- Governo de SP (20%): O salto no escuro. Uma aposta que exige que Tarcísio recue ou que Haddad sustente o seu “não” até o fim. É o cenário que os progressistas amam, mas que a realidade evita.
- O Recuo para MS (5%): O campo dos mortos. Uma ponte queimada que já não sustenta o passo.
Conclusão: Simone Tebet migrará para o PSB. Não por coragem, mas por uma falta de alternativas que a política disfarça de estratégia. Ela trocará o abismo da solidão sul-mato-grossense pelo risco da estranheza paulista. No final, o entusiasmo dos que a apoiam de longe será o consolo de uma derrota no Governo ou o combustível de uma vitória no Senado. O Carnaval trará a notícia; o Senado trará o cargo; mas o sossego, esse continuará do outro lado do mar, onde os sonhos dos progressistas e os números de São Paulo finalmente se desencontram.
