O PROBLEMA NÃO SÃO OS EXTREMOS. É O VAZIO NO MEIO.

A primeira coisa que morreu não foi a verdade. Foi o meio.

Não o meio do caminho, que costuma morrer em trilhas mal sinalizadas e relações longas demais. Falo do meio como ideia política. O centro. Aquele espaço incômodo onde as pessoas discordavam sem se destruir, erravam sem pedir desculpas públicas e ainda assim voltavam para casa acreditando que a civilização sobreviveria à semana.

O centro era um costume. E costumes, descobri tarde demais, não sobrevivem quando passam a parecer frouxos diante da virtude inflamada.

Em algum momento, o centro deixou de ser visto como equilíbrio e passou a ser tratado como cumplicidade. Quem pedia calma era acusado de omissão. Quem sugeria nuance parecia suspeito. O sujeito que dizia “talvez” virou um risco moral. E assim o meio foi se encolhendo, até desaparecer. Não houve funeral. Apenas um silêncio constrangedor.

No lugar do centro, entrou algo muito mais eficiente: a certeza pronta. Entregue em domicílio. Sem manual, sem dúvida, sem direito a devolução. Bastava escolher um lado e pronto — vinha junto um pacote completo: indignação calibrada, inimigo bem definido e um vocabulário novo, cuidadosamente higienizado para evitar qualquer traço de humanidade ambígua.

Depois da Segunda Guerra, o Ocidente havia aprendido — por trauma, não por virtude — que havia limites. Não era um mundo justo, mas havia coisas que simplesmente não se faziam. Estados de Direito, regras do jogo, alternância de poder, freios institucionais, vergonha pública quando se ultrapassava a linha. Nada disso era perfeito. Mas funcionava como um guarda-corpo. Você podia tropeçar, mas não caía no abismo toda semana.

O problema é que guarda-corpo não viraliza.

O que viraliza é o incêndio. A frase curta. O vídeo indignado. O julgamento moral em tempo real. O prazer imediato de sentir que se está do lado certo da história sem precisar ler o parágrafo seguinte.

A política, que já foi um espaço de negociação desconfortável, virou um campeonato de pureza. Não basta estar certo — é preciso ser moralmente irrepreensível. Discordar deixou de ser um direito; virou um indício. A conversa foi substituída pela correção pública. E a dúvida, essa velha aliada da democracia, passou a ser tratada como fraqueza de caráter.

Comecei a perceber que algo tinha saído do trilho em situações banais. Uma reunião corporativa em que todos concordavam com tudo, menos com a realidade. Um treinamento em que ninguém fazia perguntas, mas todos tomavam notas com ar grave, como quem assina um termo de culpa preventiva. Um comercial de televisão em que o homem aparecia, mais uma vez, como um misto de criança grande e ameaça difusa — enquanto a virtude vinha sempre do outro lado, impecável, pedagógica, incontestável.

Nada disso, isoladamente, parecia grave. O problema nunca é o detalhe. É a repetição.

Foi aí que surgiram duas figuras recorrentes do nosso tempo: o justiceiro e o ressentido.

O justiceiro tem certezas. Ele não debate, diagnostica. Não discorda, expõe. Não conversa, corrige. Para ele, o mundo é um problema moral aguardando solução. O ressentido, por sua vez, não se sente representado nem defendido. Apenas acusado. E quando alguém é acusado o tempo todo, acaba procurando abrigo emocional. Em política, esse abrigo costuma ser um extremo.

As explicações tradicionais para essa radicalização começaram a falhar. Economia? Importa, claro, mas não explica tudo. Houve momentos de prosperidade em que as pessoas, ainda assim, escolheram líderes dispostos a tratar instituições como obstáculos inconvenientes. Imigração? Tema fácil, porque medo dispensa contabilidade. O problema real parecia outro: reconhecimento. Pertencimento. A sensação de que o espaço público não estava mais falando com você, mas sobre você — e quase sempre contra você.

Enquanto isso, as democracias foram ficando febris. Algumas escorregaram abertamente. Outras começaram a brincar com a ideia de que regras atrapalham missões históricas. E missão, como se sabe, é um nome elegante para “me deixe passar por cima”.

O pano de fundo de tudo isso não era a ascensão de um extremo específico, mas o colapso do centro normativo. A perda daquele acordo silencioso sobre como discordar sem romper o pacto. Quando as regras deixam de ser vistas como proteção comum e passam a ser interpretadas como ferramentas do inimigo, a democracia vira apenas um intervalo entre surtos.

Até aqui, seria possível encerrar com um suspiro filosófico e um apelo à moderação — essa palavra hoje tratada como insulto. Mas há um tema que atravessa esse processo como um fio elétrico mal isolado, e ignorá-lo seria desonesto.

Há cerca de três décadas, um discurso ganhou hegemonia cultural. Não nasceu ilegítimo. Ao contrário: surgiu denunciando injustiças reais. Mas, ao longo do caminho, parte dele abandonou a lógica da igualdade e adotou a lógica da virtude. Transformou identidade em tribunal. Discordância em heresia. Ironia em crime. O homem, em caricatura recorrente: ora inútil, ora suspeito, ora agressor em potência. A mulher, em arquétipo moral: vítima estrutural, autoridade ética, santa de todas as causas.

Isso se espalhou não por decretos, mas por osmose. Entrou nos roteiros, nas campanhas, nos treinamentos, nas conversas. Tornou-se senso comum. E, como todo senso comum moralizado, deixou de aceitar contestação sem reagir com fúria.

É aqui que a conversa fica difícil — e por isso raramente acontece. Não porque faltem indícios culturais, mas porque fazer a pergunta já virou ofensa. Questionar os efeitos desse discurso passou a ser interpretado como prova de culpa. E quando uma hipótese se torna moralmente proibida, ela deixa de ser investigada e passa a ser combatida.

Talvez por isso ninguém queira tocar no assunto com método e tempo. É mais seguro fingir que o ressentimento surgiu do nada. Que o backlash é espontâneo. Que líderes autoritários brotam do chão como cogumelos após a chuva.

Mas a história ensina outra coisa. Quando um discurso se torna absoluto, ele convida o oposto a ser igualmente absoluto. Quando a moral vira ditadura, a força aparece como libertadora. E assim, ironicamente, um projeto que pretendia emancipar pode ajudar a pavimentar o caminho para o autoritarismo — não porque quis, mas porque decidiu que fins nobres dispensam limites.

No fim das contas, talvez o maior erro do nosso tempo tenha sido confundir civilização com certeza. Civilização não é estar certo. É aceitar regras mesmo quando se acha que tem razão. É tolerar o outro quando ele pensa diferente. É desconfiar de qualquer causa que precise destruir o meio para vencer.

Porque quando o centro desaparece, não sobra virtude. Sobra apenas força. E a história já mostrou, mais de uma vez, que força alguma salva o mundo — apenas o reorganiza em ruínas, com excelentes intenções e péssimos resultados.

Palco político vazio sob um holofote, com dois microfones sem ninguém falando, enquanto multidões sombrias e desfocadas se aglomeram ao fundo, simbolizando o desaparecimento do centro no debate democrático.

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