Havia uma biblioteca silenciosa no subsolo da história.
Ali, entre poeira e pergaminhos, descansavam lições que a humanidade deixou prontas para quem quisesse evitar tragédias anunciadas. Mas governantes — quase sempre — preferem a claridade das câmeras ao silêncio dos livros.
O resultado é previsível: repetimos dramas que filósofos já descreveram antes mesmo de existir palavra para “crise institucional”.
A política brasileira, essa epopeia sempre em cartaz, oferece três capítulos recentes que mostram como não ler filosofia pode custar um país inteiro.
Índice
- 1 Dilma: A Presidente que Acreditou que Números Obedecem à Vontade Humana
- 2 Bolsonaro: O Governante que Desprezou o Primeiro Mandamento da Pólis — Cuidar da Vida
- 3 Lula: A Segunda Chance que a História Raramente Concede
- 4 A Lição que até o Clima nos Dá
- 5 Dezembro de 2024: Quando a Realidade Apresentou a Conta
- 6 Chegar à Biblioteca sem Nunca Ter Entrado Nela
- 7 Novembro de 2025: Um Ano Depois, Outras Batalhas
- 8 No Subsolo do Supremo: A Biblioteca Judicial Tenta se Fazer Ouvir
- 9 A Verdadeira Lição: Ninguém Governa Contra a Realidade
- 10 Epílogo: A Conta que Chegou — E o que Fizemos com Ela
Dilma: A Presidente que Acreditou que Números Obedecem à Vontade Humana
Dilma Rousseff foi talvez o caso mais emblemático de um governo que confundiu decisão política com lei natural.
Há uma arrogância tecnocrática, muito aristotélica, em achar que basta decretar para que o mundo se comporte como previsto. Aristóteles já advertia que a virtude é a justa medida — mas Dilma governou como se o excesso fosse apenas uma forma empenhada de coragem. O resultado foi o óbvio: a realidade reagiu. A economia não dobrava; ela quebrava.
De Platão a Maquiavel, todos sustentam que governar é, antes de tudo, enxergar o país como ele é, não como gostaríamos que fosse. Dilma não ouvia o país. O país berrava e ela respondia com planilhas. O país ardia e ela retrucava com decretos.
E como nos lembra Maquiavel: quem ignora os humores do povo dorme com o inimigo dentro da própria cama. Dilma não foi derrotada pela oposição — foi derrotada pela Física Política: nenhum governo sobrevive quando rompe com a realidade que o sustenta.
Bolsonaro: O Governante que Desprezou o Primeiro Mandamento da Pólis — Cuidar da Vida
Se Dilma ignorou os números, Bolsonaro desprezou algo ainda mais básico: a lição inaugural de toda filosofia política, aquela ensinada por Sócrates nas praças, por Montesquieu nos salões e por Hannah Arendt nos escombros do século XX.
O Estado existe para proteger a vida.
Bolsonaro preferiu travar guerra contra inimigos imaginários, como se governar fosse performar indignação. A política virou palanque; a tragédia virou teimosia; a morte virou estatística.
Ele ignorou a máxima estoica de Marco Aurélio: “O primeiro poder de um governante é o autocontrole.” E ignorou também Hobbes, que já advertia que, sem a preservação da vida, o resto é selva — e a selva não perdoa. Foi um governo que cultivou o ressentimento como método, o conflito como estética e a ignorância como tatuagem moral. O país saiu menor: dividido, cansado e sobretudo cético.
Quando um governante despreza a prudência, ele planta caos — e o caos sempre germina.
Lula: A Segunda Chance que a História Raramente Concede
E então chegou Lula, pela terceira vez. O homem que voltou quando poucos apostavam em seu retorno.
Aqui vale um pequeno gesto de justiça: poucos líderes políticos no Ocidente conhecem o país real como ele. Lula enxerga o subsolo do Brasil. Escutou mais conversas de botequim do que muitos sociólogos; sabe o cheiro da fábrica e o silêncio da fome. Há nele uma virtude rara: empatia pragmática. Não é teoria, não é retórica — é memória.
E memória é um poder político gigantesco.
Mas justamente por isso, os alertas se tornam ainda mais importantes. Em política, virtudes também carregam sombras. Lula, quando se apoia demais na intuição, corre o risco de esquecer a advertência de Sêneca: “Falta de medida faz naufragar até a virtude.”
Ele tem a habilidade de conversar com todos, mas pode tropeçar na tentação de agradar a todos. E nenhum país sobrevive permanentemente à lógica da costura infinita. Concessão demais dissolve; firmeza de menos enfraquece. O risco não é escândalo — é dispersão.
A Lição que até o Clima nos Dá
É justamente neste contexto que, em novembro de 2025, o Brasil se tornou palco da COP30, em Belém. Jovens indígenas marcham, o planeta reclama, delegações de 140 países observam, e mais de 50 chefes de Estado aguardam respostas.
Esse não é um detalhe da política: é o termômetro dela.
Se um governo trata a Amazônia como cheque em branco — ou a vida coletiva como margem de manobra — está ignorando a lição mais basal da História: o poder que esquece que serve falha por dentro. Aqui entra Hans Jonas, o filósofo da ética da responsabilidade: o poder político hoje carrega o dever de proteger quem ainda não nasceu. Governar não é apenas administrar o presente — é responder pelo futuro.
E Lula, neste novembro de 2025, tem diante de si a chance de mostrar que compreende essa lição. Que o Estado tem de cuidar dos seus cidadãos e da Terra — porque uma falha institucional diante de uma crise climática se converte em falha moral diante da posteridade.
Dezembro de 2024: Quando a Realidade Apresentou a Conta
Mas para entender este momento, é preciso voltar um ano.
Em dezembro de 2024, Lula enfrentou sua primeira grande crise de credibilidade no terceiro mandato. Depois de semanas de negociação, anunciou um pacote de corte de gastos que prometia economizar R$ 70 bilhões nos próximos dois anos — R$ 327 bilhões até 2030. Teto no salário mínimo. Cortes no abono salarial. Redução no Bolsa Família. Limite nas emendas parlamentares.
O mercado não acreditou. O dólar disparou para R$ 6. A credibilidade derreteu.
E aqui é preciso ser rigorosamente justo.
Lula fez algo que governos anteriores nunca tiveram coragem de fazer: tentou construir justiça tributária real. A isenção de IR até R$ 5 mil não é populismo — é correção histórica. É reconhecer que quem ganha dois salários mínimos não pode pagar imposto como se fosse classe média. E mais: Lula tentou compensar. Propôs alíquota mínima de 10% sobre lucros e dividendos. Tentou taxar as bets que sangram os mais pobres. Buscou fazer os donos do capital pagarem proporcionalmente.
O Congresso bloqueou tudo. Aprovou a isenção para os pobres. Barrou a taxação dos ricos. E o mercado, esse juiz seletivo, cobrou apenas metade da conta.
Aristóteles já havia ensinado: a virtude política está na justa medida. Mas como encontrar a medida justa quando o Congresso só aprova a metade generosa da equação e veta a metade que equilibra?
O problema não é Lula. O problema é que ele governa num presidencialismo de coalizão que transforma cada medida em negociação de bastidores. E aqui está a tragédia: não é falha moral negociar emendas parlamentares em gabinetes — é o único jeito de governar neste sistema. É Maquiavel em tempo real: o príncipe não escolhe as virtudes que gostaria de ter; ele navega as circunstâncias que o cercam.
O que o mercado puniu em dezembro de 2024 não foi a isenção aos pobres — foi a falta de coragem do Congresso em fazer os ricos pagarem a conta. E essa covardia legislativa tem nome: captura institucional.
Chegar à Biblioteca sem Nunca Ter Entrado Nela
E aqui chegamos ao ponto crucial que diferencia Lula de Dilma e Bolsonaro.
Dilma ignorou a biblioteca. Bolsonaro a desprezou. Mas Lula? Lula nunca precisou entrar nela.
Ele mal tem o ensino primário completo. Não é dado à leitura. Nunca abriu Aristóteles, Maquiavel ou Rousseau. Mas chegou, pela experiência de botequim, de sindicato e de cadeia, exatamente às mesmas conclusões que esses homens levaram décadas escrevendo.
É a sabedoria da rua que encontrou, por outro caminho, o que a filosofia sistematizou em tratados.
Lula sabe que governar exige equilíbrio — não porque leu sobre a justa medida aristotélica, mas porque negociou acordos sindicais onde ceder demais significava perder a greve, e ceder de menos significava perder os trabalhadores. Sabe que a realidade não dobra — não porque estudou materialismo histórico, mas porque apanhou da polícia de Médici e entendeu, na carne, que poder sem base social é performance que dura uma noite. Sabe que é preciso cuidar da vida e das contas públicas — não porque leu Keynes, mas porque viu mãe de família escolher entre remédio e comida, e aprendeu que economia não é planilha: é estômago vazio ou cheio.
O problema é que ele governa num sistema onde o Senado tem poder de veto sobre justiça social, onde o mercado especula contra qualquer redistribuição, e onde o presidencialismo de coalizão transforma cada avanço em moeda de troca.
Rousseau diria — se estivesse vivo para observar Lula — que ele está preso num contrato social viciado: foi eleito para governar, mas precisa pedir permissão ao Congresso para cada vírgula. Tocqueville apontaria o paradoxo: a democracia brasileira é forte o suficiente para eleger quem o povo quer, mas fraca demais para permitir que ele governe como prometeu.
Lula fez mais justiça tributária do que FHC, mais do que Dilma, infinitamente mais do que Bolsonaro. Mas o sistema o impede de completar a obra. E essa é a tragédia grega da política brasileira: o herói intuitivo sabe o caminho certo, mas as correntes institucionais o prendem na metade do trajeto.
Keynes alertou: na economia, a confiança é tudo. E confiança não se reconquista com anúncios — reconquista-se com consistência. Mas como ser consistente quando o Congresso aprova seus gastos e veta suas receitas?
Lula é a prova viva de que há dois caminhos para a sabedoria política: o da biblioteca e o da vida. Ele escolheu — ou melhor, a vida escolheu por ele — o segundo. E chegou lá. Mas descobriu, tarde demais, que conhecer o caminho certo não é o mesmo que ter as chaves para percorrê-lo.
Novembro de 2025: Um Ano Depois, Outras Batalhas
Um ano depois daquele dezembro turbulento, Lula está em Belém para a COP30, com o mundo inteiro assistindo. O dólar voltou para R$ 5,32 — ainda alto, mas longe do pânico de dezembro. A economia segue crescendo acima de 2%. A inflação está dentro da meta.
O susto passou. A credibilidade, aos poucos, se reconstrói.
Mas há outras batalhas sendo travadas. E uma delas acontece, curiosamente, no subsolo jurídico do país.
No Subsolo do Supremo: A Biblioteca Judicial Tenta se Fazer Ouvir
Enquanto Lula negocia clima em Belém, outro embate, menos visível mas igualmente revelador, acontece em Brasília.
Em outubro e novembro de 2025, o ministro Flávio Dino bloqueou R$ 4,2 bilhões em emendas parlamentares. O crime? Falta de transparência. O Congresso berrou. Os deputados ameaçaram. Mas Dino não cedeu.
Aqui entra Montesquieu, que avisou há 300 anos: “Para que não se abuse do poder, é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder.”
Dino não inventou nada. Apenas lembrou aos parlamentares que a República exige luz — e que orçamento secreto é oxímoro democrático. Exigiu identificação de cada parlamentar que indicou recursos. Exigiu rastreabilidade total. Exigiu que estados e municípios também seguissem as mesmas regras. E quando o Congresso tentou driblá-lo com resoluções ambíguas, Dino devolveu: “Expliquem melhor. Tenho 10 dias de paciência.”
Mas há uma lição ainda mais profunda, vinda de Kant: a moral exige que tratemos os cidadãos como fins, nunca como meios. Emendas opacas transformam o povo em instrumento de barganha política. E um país que aceita isso não governa — apenas negocia a própria decadência.
O curioso é que Dino estava, literalmente, aplicando filosofia. Rousseau dizia que a soberania popular exige transparência absoluta. John Stuart Mill sustentava que a democracia morre quando o povo não pode fiscalizar seus representantes.
E o Congresso brasileiro? Respondeu como sempre: reclamando que a Constituição atrapalha a política. É outro capítulo da mesma história: a biblioteca está aberta, as lições estão prontas, mas quem tem o poder prefere fingir que não sabe ler.
A Verdadeira Lição: Ninguém Governa Contra a Realidade
O que Bolsonaro, Dilma e Lula têm em comum não é ideologia. É a descoberta, cada um a seu modo, de que a vontade política sozinha não basta.
O mundo não dobra. O máximo que ele faz é ceder um pouco — e depois cobrar com juros compostos.
Marx avisou: a realidade material vence narrativas. Tocqueville avisou: instituições vencem impulsos. Foucault avisou: o poder vigia quem acha que já venceu. Bauman avisou: nada que é líquido se sustenta por muito tempo sem solidez moral. Adam Smith avisou: mercados punem governos que fingem que a escassez não existe.
Todos disseram a mesma coisa: quem ignora a realidade é, cedo ou tarde, esmagado por ela.
Mas a política brasileira insiste em atuar como se o país fosse apenas palco de conveniências momentâneas — um teatro de improviso com efeitos especiais baratos. O curioso é que todas as respostas estão lá, naquela biblioteca silenciosa, sempre aberta, sempre disponível, sempre esquecida.
E a cada novo governo, seguimos esperando que alguém, finalmente, desça as escadas e abra um daqueles livros.
Epílogo: A Conta que Chegou — E o que Fizemos com Ela
No fim, governar não é sobre ideologia. É sobre humildade diante do mundo e coragem diante dos números.
O mundo não dobra. O mundo cobra. E a conta chegou — chegou em dezembro de 2024, quando o dólar a R$ 6 provou que narrativas não alimentam mercados, e boas intenções não pagam juros.
Um ano depois, em novembro de 2025, o Brasil ainda está de pé. O dólar recuou para R$ 5,32. A economia resiste. Lula negocia clima com o mundo em Belém, e Flávio Dino tenta impor transparência às emendas em Brasília.
São batalhas diferentes, travadas em frentes distintas, mas que revelam a mesma verdade: governar exige mais do que intuição ou boa vontade. Exige enfrentar o que os filósofos já sabiam há séculos.
A biblioteca silenciosa continua lá, no subsolo da história. As lições estão prontas.
Aristóteles ensinou sobre a justa medida. Montesquieu ensinou sobre limites ao poder. Hans Jonas ensinou sobre responsabilidade intergeracional. Kant ensinou sobre dignidade e transparência. Hobbes ensinou que sem ordem não há vida. Rousseau ensinou que sem transparência não há República.
E o Brasil?
O Brasil sobreviveu ao susto de dezembro de 2024. Mas ainda dança ao ritmo dos erros que foram avisados há séculos — esperando que alguém, finalmente, desça as escadas e abra um daqueles livros antes que as paredes desabem.
Até lá, seguimos pagando o preço da ignorância voluntária.
E a conta, como sempre, é apresentada pelos mais vulneráveis.

