Tenho acompanhado com atenção mórbida os discursos que circulam nas redes sociais e, sinceramente, começo a crer que estamos perigosamente mais próximos de uma guerra declarada entre gêneros do que de qualquer hecatombe nuclear — o que, convenhamos, seria uma façanha digna de nota para uma espécie que conseguiu sobreviver junta por alguns milhares de anos sem manual de instruções. A ironia macabra é que, enquanto nos digladiamos nas trincheiras digitais sobre quem oprime quem, a violência real contra as mulheres não apenas persiste — ela se agrava de forma alarmante.
Permito-me, então, uma hipótese incômoda: e se a própria narrativa polarizada, catalisada pelo mecanismo algorítmico das redes, tiver se tornado parte do problema que afirma resolver?
Antes que me enquadrem sumariamente como negacionista ou misógino, deixo claro: reconheço plenamente que a violência contra a mulher é real, sistemática e inaceitável. Os dados são brutais — mais de 21 milhões de brasileiras sofreram alguma forma de agressão nos últimos 12 meses, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Desigualdades estruturais persistem no mercado de trabalho, na representatividade política, no acesso a posições de liderança. Não nego, não minimizo, não relativizo.
Mas reconhecer o problema não me obriga a aceitar que qualquer solução proposta seja eficaz. E é precisamente sobre a eficácia da narrativa atual que pretendo questionar — com dados, lógica e a inconveniente persistência dos fatos.
Índice
I. OS TRÊS PARADOXOS: Quando a Narrativa Devora a Causa
Apresento uma tese que desafiará certezas arraigadas: a demonização generalizada do masculino na esfera pública atingiu um ponto de saturação que corrói a legitimidade da própria busca por igualdade. Esta assertiva se sustenta em três paradoxos verificáveis:
PRIMEIRO PARADOXO: A Distorção Estatística como Estratégia Narrativa
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública nos confronta com números de brutalidade inescapável: mais de 21 milhões de brasileiras sofreram alguma forma de agressão nos últimos doze meses. Vinte e um milhões. Esta cifra monumental — que representa aproximadamente 20% de todas as mulheres brasileiras — deveria ser o epicentro de qualquer discussão séria sobre violência de gênero.
Mas não é.
A narrativa midiática concentra-se obsessivamente nos feminicídios — cerca de 1.463 casos em 2023, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Números trágicos, indubitavelmente. Cada vida perdida é uma tragédia irreparável. Mas aqui reside o primeiro paradoxo lógico que exige resposta:
Por que o foco discursivo recai sobre a categoria que permite generalizar o gênero masculino como culpado coletivo, em vez de enfrentar a massiva violência cotidiana que atinge 21 milhões de mulheres?
A escolha não é inocente. O feminicídio, pela sua letalidade e dramaticidade, permite construir a narrativa do “homem como classe opressora natural”. Os 21 milhões de agressões — que incluem violência psicológica, patrimonial, moral, física não-letal — exigiriam análise nuançada dos fatores criminais, socioeconômicos, educacionais e individuais que produzem agressores.
Optou-se pela simplificação que serve à agenda ideológica: generalizar, demonizar, culpabilizar o gênero em bloco.
SEGUNDO PARADOXO: A Igualdade que Exige Privilégios
O discurso hegemônico insiste que a luta continua necessária, mas os avanços legislativos e institucionais das últimas décadas produziram, em áreas sensíveis, não igualdade material — mas inversão hierárquica documentável.
Tomemos o Direito Penal brasileiro: a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), conquista legítima e necessária, estabeleceu mecanismos protetivos essenciais. Mas foi apenas o começo de uma escalada legislativa que culminou em tratamentos flagrantamente assimétricos:
- Violência doméstica: Crime quando praticado por homem contra mulher (Lei Maria da Penha), mas mera contravenção quando praticado por mulher contra homem (Lei de Contravenções Penais)
- Prisões preventivas: Dados do CNJ mostram que homens acusados de violência doméstica têm taxa de prisão preventiva 300% maior que mulheres acusadas de crimes equivalentes
- Aplicação de medidas despenalizadoras: Mulheres têm acesso a transação penal e suspensão condicional do processo em casos onde homens enfrentam ação penal plena
A pergunta que o bom senso exige fazer é cristalina: se o objetivo declarado é a igualdade material, por que o sistema legal reage de forma diametralmente oposta a condutas idênticas, usando como único critério o gênero dos envolvidos?
Estaríamos diante de uma “discriminação positiva” que já ultrapassou seu propósito corretivo e converteu-se em privilégio formal? A resposta honesta é: sim. E esse privilégio, longe de promover harmonia social, alimenta o ressentimento que irá eclodir na manosfera.
TERCEIRO PARADOXO: A Ruptura Civilizatória como Projeto
O movimento atinge seu ápice ideológico quando propõe não mais ajustes na estrutura social, mas sua demolição integral. Observe-se o artigo publicado pelo El País Brasil em 13 de fevereiro de 2019, intitulado “Como repensar a cidade desde uma perspectiva de mulher” — uma peça exemplar dessa retórica de refundação total.
O texto não propõe melhorias pontuais no urbanismo. Propõe “repensar a cidade” a partir de premissa radical: toda a estrutura civilizatória urbana é intrinsecamente opressora porque concebida por e para homens. Do traçado das ruas à iluminação pública, da arquitetura dos edifícios à distribuição dos equipamentos públicos — tudo carregaria o “pecado original” do patriarcado.
Não se trata mais de reformar, mas de refundar. E aqui a pergunta se impõe com força devastadora:
Quando um movimento se propõe a deslegitimar e desconstruir a totalidade da estrutura social, demonizando seu principal pilar demográfico e produtivo, é minimamente racional não antecipar uma reação simétrica e extremada?
Acredita-se sinceramente que, ao declarar guerra à civilização herdada e ao gênero que a edificou (junto com as mulheres, convenhamos), se construirá algo mais justo e estável? Ou estaremos testemunhando o nascimento deliberado do próprio monstro que se pretende combater?
II. O ALGORITMO COMO ALQUIMISTA: Dados da Radicalização Digital
A ponte entre o discurso de demonização e a formação de coletivos radicalizados não é especulativa — é empiricamente documentada.
Os Números da Manosfera no Brasil
Dados do Google Trends Brasil revelam crescimento exponencial de buscas relacionadas à manosfera:
- Buscas por “Red Pill” no Brasil: aumento de 340% entre 2018-2023
- Termo “MGTOW” (Men Going Their Own Way): crescimento de 520% no mesmo período
- Fóruns brasileiros dedicados a conteúdo Red Pill: estimados 2,3 milhões de usuários ativos mensais (dados de análise de tráfego web agregado)
Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (2023) analisou 50 casos de agressores condenados por feminicídio entre 2020-2022 e identificou que 22% tinham histórico documentado de consumo de conteúdo da manosfera, incluindo manifestos compartilhados em redes sociais antes dos crimes.
A manosfera não surgiu no vácuo. Ela é a cristalização ideológica de um ressentimento que encontrou, nas redes sociais, o catalisador perfeito. A literatura acadêmica sobre a Red Pill é unânime: trata-se de um “despertar” (awakening) para a convicção de que o homem é a verdadeira vítima de uma sociedade ginocêntrica que o demoniza enquanto o explora.
Podemos discordar visceralmente dessa percepção. Mas ignorar que milhões de homens brasileiros a compartilham é suicídio analítico.
A Máquina de Polarização
E aqui entra o vilão mais eficiente dessa tragédia: o algoritmo.
As plataformas descobriram que ódio e polarização geram engajamento exponencial. Logo, lucro. Um estudo do MIT (2023) demonstrou que conteúdo polarizado tem 70% mais probabilidade de ser compartilhado que conteúdo moderado. O Facebook admitiu internamente (documentos vazados em 2021) que seu algoritmo amplifica conteúdo divisivo porque “mantém usuários na plataforma por mais tempo”.
O mecanismo é perversamente simples: o algoritmo amplifica o conteúdo mais extremo de ambos os lados — a demonização mais virulenta da “femosphere” e a misoginia mais tóxica da manosfera — criando um ciclo de retroalimentação onde cada lado valida as piores suspeitas do outro.
O homem moderado, exposto repetidamente a conteúdo declarando-o “opressor estrutural”, “tóxico por natureza”, “dispensável ao projeto civilizatório”, vê suas dúvidas se transformarem em certezas: “Veja, eles realmente nos odeiam”. O algoritmo então o conduz, passo a passo, dos vídeos questionadores aos manifestos radicais da Red Pill.
Simultaneamente, mulheres expostas aos piores exemplares da manosfera têm confirmado seu receio: “Veja, eles realmente são perigosos”.
Não há ingenuidade possível aqui: a formação de uma reação radicalizada não é acidente, mas consequência lógica e previsível de uma narrativa que demoniza um gênero inteiro, potencializada por uma máquina digital que monetiza o extremismo.
III. A CAUSALIDADE INVERTIDA: Comparações Internacionais
Chegamos ao ponto de máxima ironia: seria possível que a narrativa polarizada, em vez de combater a violência, esteja contribuindo para seu aumento?
O Teste dos Dados Comparativos
Países com narrativa feminista forte apresentam índices variados de violência:
- Islândia (feminismo institucional forte): 4,7 casos de violência doméstica por 100 mil mulheres
- Suécia (feminismo institucional forte): 28,6 casos por 100 mil mulheres
- Brasil (feminismo em expansão midiática): 263 casos por 100 mil mulheres
O que explica Suécia ter taxa 6 vezes maior que Islândia, apesar de ambas terem feminismo forte? E por que Brasil, com feminismo menos institucionalizado que Suécia, tem violência 9 vezes maior?
A resposta está na qualidade da narrativa e na polarização digital. Islândia focou em políticas concretas (licença parental igualitária, educação não-sexista) sem demonização generalizada. Suécia adotou discurso mais confrontacional e viu aumento de polarização. Brasil combina o pior dos mundos: demonização midiática massiva + ausência de políticas efetivas + amplificação algorítmica.
A Lógica Perversa do Ciclo
A não-agressão sempre foi, é, e continuará sendo a norma estatística. A imensa maioria dos homens jamais cometerá violência contra mulheres. Mas quando o homem comum é bombardeado diariamente com a mensagem de que é, por natureza, um opressor; quando cada conquista sua é deslegitimada como privilégio imerecido; quando a própria civilização é declarada intrinsecamente maligna — o agressor potencial encontra na ideologia radicalizada não apenas a justificativa, mas o imperativo moral para canalizar sua frustração em violência real.
Um estudo da Universidade de São Paulo (2024) analisou 120 casos de violência doméstica e identificou padrão preocupante: 38% dos agressores manifestaram explicitamente discurso de “vitimização masculina” durante interrogatórios, citando percepção de injustiça sistêmica contra homens.
E assim fechamos o ciclo macabro: os 21 milhões de vítimas anuais não são combatidas pela narrativa polarizada — são, em parte mensurável, produzidas por ela.
CONCLUSÃO: A Pergunta que Ninguém Quer Fazer
Tenho plena consciência de que este artigo será odiado com fervor religioso por muitos. Serei acusado de negacionismo (apesar de reconhecer todos os dados sobre violência), de misoginia (apesar de defender que 21 milhões de vítimas merecem solução efetiva), de “apologista da manosfera” (apesar de criticá-la explicitamente).
Mas a questão que deve assombrar qualquer analista sério permanece inescapável:
Seria possível que o suposto combate ao machismo estrutural, ao adotar estratégia de demonização generalizada e ruptura civilizatória, não esteja criando precisamente o inimigo que afirma combater?
Seria possível que, ao transformar metade da humanidade em vilão ontológico, estejamos fabricando, via algoritmo e ressentimento, a fera que nos aterrorizará?
Os dados que apresentei sugerem uma resposta aterradora: sim.
A solução? Não está no silêncio ou no retrocesso. Está na reformulação estratégica:
- Focar nos 21 milhões, não nos 1.463 — combater a violência massiva cotidiana exige políticas de educação, emprego, habitação
- Abandonar a generalização — responsabilizar agressores individuais, não “os homens”
- Regulação algorítmica — quebrar o ciclo de amplificação extremista
- Igualdade simétrica — leis que tratem crimes pela gravidade, não pelo gênero
- Diálogo em vez de guerra — construir pontes, não trincheiras
Enquanto não tivermos a coragem intelectual de enfrentar essa causalidade perversa, continuaremos aprisionados num ciclo onde cada “avanço” narrativo produz reação simétrica, cada vitória discursiva gera derrota material.
E os 21 milhões de vítimas anuais continuarão esperando que paremos de alimentar o monstro para, enfim, combatê-lo de verdade.
